Archive for January, 2006

Credo!!!

25/01/2006

(Um pouco fora de contexto, mas agora que tenho onde publicar, lá vai.)

Creio em Dirceu-Pai, Todo-Oneroso,
Criador do Caixa-Dois e do Mensalão
E em Seu único Filho Marcos Valério, Nosso Usurpador,
Que foi concebido pelo poder da Sem-Vergonhice,
Nasceu com toque de Midas,
Padeceu sob a voz do Senado.
Foi interrogado, contradito e acareado;
Desceu ao fundo do poço,
Negociou redução de pena,
Admitiu-se réu,
Está sentado à direita de Dirceu-Pai, Todo-Oneroso,
Donde há de vir a contar onde estão os dólares.
Creio no Espírito-de-Porco,
No Santo Duda Mendonça,
No confisco dos “lucros”,
Na punição dos culpados,
na Portugal Telecom,
no Coelhinho da Páscoa.
Amém!

A Praia

18/01/2006

Menos um dia para Jerônimo.

Fatigado sentia-se. Meses parado, recuperando-se, relembrando de cada flash que seu cérebro lhe permitia, sonhando com como seria se tudo não houvesse acontecido. “Deveria ter estudado cálculo…”, pensava. Dois meses antes envolvera-se num acidente automobilístico que deslocara seu fêmur. Um mês inteiro sem mudar de posição numa cama. Outro mês de fisioterapia e a companhia de duas damas: Ermínia Paula e Manuela Emengarda. Foi como decidiu chamar suas duas muletas. Ele sabia agradecer pelo ocorrido, pelos dois meses sem andar. Não morreram todos por milagre.

Hoje estava quase ótimo. Fazia as sessões com a fisioterapeuta, mantinha-se disciplinado quanto a cada recomendação que lhe fizera o médico. Não lhe agradava a possibilidade de não recuperar totalmente todos os movimentos, de não poder fazer tudo o que podia fazer antes da fatídica noite. Era um espírito livre, tinha calafrios só de pensar em ser peso ou de não poder mais correr, jogar vôlei, andar todos os dias para a faculdade.

Nunca a praia lhe fora tão convidativa. Não era fã de sol, nem das ondas. A praia lhe convidava a correr; à noite. Adorava a lua, idolatrava o mar. Pensava em si mesmo correndo perto da água que beijava a areia de tempos em tempos, numa dança infinita e mágica. Já sentia o vento escoando pelo seu corpo à medida que avançava rápido em direção ao final da orla. Correr! O que não daria para fazê-lo naquele momento! Mas ainda estava preso a suas damas e todo exercício que lhe era permitido, e recomendado, era o que a fisioterapeuta passava.

Mais um mês, mais trabalho árduo de recuperação. Enfim, era liberado a deixar suas companheiras fiéis dos últimos tempos. Sem nenhuma nostalgia, abandonou-as. Já andava com certo vagar, um certo receio. Questão de tempo, pouco tempo, para andar normalmente, no seu ritmo. Em mais algum tempo ainda, poderia aventurar-se ao pé do mar a percorrer a orla em carreira ritmada.

Eis que chega o dia! Já andava sem problemas, já podia correr! A lua linda, cheia, digna da admiração do próprio sol; o mar estava calmo, a praia convidativa.

Resolveu ficar em casa. Estava muito cansado dos últimos meses.

Alvorada…

14/01/2006


Menos um dia para Jerônimo.

Lamentando acordou naquela manhã. Eram sete e meia e o relógio tocava “speak softly love” num volume insuportável para seus ouvidos naquele momento; um dom Corleoni para o sono sagrado em que se achava imerso até então. Seu quarto, semi-escurecido pelas cortinas vinho que abafavam o grito de bom dia que o sol enviava lá do lado de fora, sua cama, macia como só em sonho era possível. Por fim, esbofeteia de alguma forma o despertador e o cala de uma vez por todas. Enquanto reune forças para se levantar, vê os raios do astro-mor, uns mais rebeldes que teimaram em cruzar o tecido da cortina, adentrando o quarto, trazendo sua luz e seu calor para dentro. Resolve ajudá-los. “Já que tenho que levantar, que se faça a luz.”, pensou. Abriu as cortinas.

Que bela visão! O céu, limpo como jamais o vira, apenas algumas nuvens esparsas, fracas, como se fosse um rastro deixado por uma horda de anjos que houvera passado por ali algumas horas antes. “Cirrus”, pensou. O dia seria bonito; como já o estava naquele momento. Viu o verde das árvores lá em baixo, as ondas acariciando a areia, que reluzia à alvorada qual o Eldorado deveria ser imaginado por Cortez. “Que belo dia! Trabalhar é uma pena!”, pensou novamente.

Não abrira a boca até então. Ainda estava semi-consciente, refazendo-se do sono e sentindo o dia penetrar-lhe nas veias. Demoraria ainda alguns minutos até que ele pudesse ter um pensamento racional. Por enquanto tudo era semi-onírico. Desde suas ações até seus devaneios. Devaneios que agora percorriam a praia e se jogavam n’água, dando braçadas até depois da arrebentação, onde poderiam boiar, sentindo as carícias tanto do sol, quanto dá água e da brisa leve que soprava naquela hora. Seria um bom dia para aprender a surfar. Ou velejar. “Velejar mais tarde. A esta hora não há vento…”, por fim disse a si mesmo, num ropante inesperado de consciência, já típico de seu ser naquela hora do dia. Mas outro pensamento escureceu-lhe a razão e o dia: “trabalho!”. Aquele era um dia superlativo. Merecia ser admirado, celebrado, vivido! Era até pecado se trabalhar em dia tão belo. Num derradeiro e animador sopro de consciência, disse: “Hoje é sábado!”. Agora estava em seu juízo pleno. Já distinguia os dias, a hora, onde estava. Tudo enfim. “Sábado!”

Fechou as cortinas, jogou-se na cama e voltou a dormir.