Archive for March, 2006

No meio do caminho…

19/03/2006

Menos um dia para Jerônimo.

Sonolento sentia-se. Acordara às “oito horas da madrugada” como que suportando o peso do mundo às costas. Tomara seu nutritivo café da manhã: sorvete de passas ao rum com quilos de cobertura e castanha de caju, se arrumara e, agora dentro do ônibus, encaminhava-se ao trabalho.

Ônibus cheio, de pé. Nem tirar a costumeira pestana até o seu ponto ele poderia. Pelo menos o tinha ar condicionado. Pensava em sua cama, em estar sentado num daqueles bancos babando, até roncando. Lamentava profundamente estar de pé, num ônibus lotado, indo para o trabalho às oito e quarenta da manhã. Tão absorto estava em suas lamentações que não se deu conta da pessoa que estava a seu lado.

Ela era linda. Se havia anjos no céu, eles deveriam estar procurando um que se desprendeu do grupo e entrou num ônibus lotado naquela manhã. Esqueceu-se do sono, de para onde ia, de seu nome, de que estava de pé. Linda! No momento em que ela lhe tocou o braço sem querer ele esqueceu de tudo e via apenas aquela diva. Cabelos loiros e lisos, ouro saído direto do caldeirão de algum leprechaum que também se encantou por aquela bela figura. Seu rosto fora esculpido pelas mãos do artista mais habilidoso, um rosto que deixaria Michelangelo com vergonha de toda a sua obra. Linda!

Quando viu seus olhos, seu estômago virou, suas pernas estremeceram, seu corpo todo se arrepiou. Aqueles olhos castanho-claros, como que de cristal, ao mesmo tempo relfetindo e absorvendo a luz do sol; aqueles olhos lindos olhavam os dele. Pelos 13 quilômetros seguintes, ficaram os dois a trocar olhares, a disfarçá-los, a se encostar a cada freada ou curva. Foi quando sua mão tocou a dele. Subiu ao Paraíso e voltou o mais rápido que pôde, pois não se perdoaria se não estivesse de corpo e alma do lado daquela perfeição feita carne e osso. Mais 15 minutos de toques de mão, troca de olhares. Ficou na dúvida se houve também um meio sorriso em um dado momento. Estava maravilhoso. Como que fruto de sonho.

Resolveu tomar uma atitude drástica. Não se perdoaria se não conseguisse pelo menos saber o nome daquele anjo que o estava tirando do sério daquele jeito em plena manhã. Não interessa se fosse se atrasar. Ele tinha que falar com ela.

Imbuído desse espírito decidido e coragem sobre-humana, fez a maior loucura dos últimos anos de sua vida:

Mudo, desceu um ponto depois do seu.

Um dia de herói…

08/03/2006


Dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher

6:15 da manhã. O despertador a chama para mais um dia. Júnior ainda está no quarto, sonhando com um jogo de bolinha-de-gude que perdera uma semana antes. Teria mais meia hora para “recordar” cada lance. Enquanto isso, ela, na cozinha, preparava as torradas, esquentava o leite do filho e cuidava do arroz e dos bifes do almoço. Não que ela mesma fosse almoçar em casa, mas a criança precisava comer depois do colégio.

6:45. Hora de acordar o pequeno sonhador. Desperta-lhe com um beijo no rosto, dá bom dia. O garoto vira para o outro lado, resmungando algo parecido com um “não”. Medidas drásticas. Ela abre a janela e puxa o cobertor. Agora, sem escolha, o garoto se levanta e cambaleia com os olhos semi-cerrados ao banheiro.

De volta à cozinha enquanto o filho toma banho, ela termina o arroz, frita os bifes e escreve o bilhete para o filho com as instruções de onde achar a batata-palha e dando os “endereços” da panela com o arroz, com o feijão e do plástico com os bifes na geladeira. Corre à porta do banheiro para apressar o filho e vai se arrumar para o trabalho.

No caminho para a escola, escuta do menino uma “crítica construtiva”, dizendo que o leite estava frio e que podia ter mais chocolate. Do estacionamento ao trabalho, é obrigada a ignorar os comentários “dispensáveis” de um grupinho de “Casanovas” que talvez a achassem sortuda por ouvir elogios tão abalizados de cavalheiros tão ilustres já àquela hora da manhã. Ela pensava que aquilo era melhor do que ser surda.

Manhã dura de trabalho logo no “bom dia”. Estava ligeiramente atrasada para uma reunião com fornecedores e ligeiramente ignorou o comentário de seu chefe, que dizia que “se enganava quem pensava que ele fosse dar colher de chá a um funcionário só por ser mulher”. Outra vez, achou melhor fingir que não ouviu.

Finalmente chega a hora do dia em que ela poderia parar e pensar no que ela ainda tinha para fazer: o almoço. Almoço a que não teve direito, pois o Júnior brigara com um coleguinha no colégio por uma bolinha-de-gude azul e a diretora foi obrigada a chamar o responsável pelo garoto. Sua hora “livre” foi gasta para buscar o filho, repreendê-lo no carro, mostrar a ele o que ela havia escrito no bilhete pela manhã, lembrá-lo de fazer o dever de casa e de que ele estava de castigo e pegar dois biscoitos água-e-sal e voltar para o segundo tempo no trabalho.

No fim do dia, ainda tinha as compras do mês em aberto no seu checklist mental. Parou no supermercado e perdeu mais 45 minutos do seu tempo enchendo o carrinho e uma hora esperando na fila do caixa.

De volta à casa, depois de guardar as compras, checar se o filho fez o dever, esconder o video game e bloquear o computador, finalmente pôde esquentar sua comida e, às 19:45, almoçar. Como o garoto comera todo o bife, ela estava de volta ao fogão, fritando-se um, quando houve do marido o terceiro comentáro dispensável do dia. “Comendo tanto assim, vai engoradar, hein, amor!”, disse ele em tom jocoso para quebrar o silêncio. Ela, cansada demais para responder devidamente, apenas sorriu. O marido foi para o banho; ela, para a máquina de lavar. Enquanto comia, a máquina podia trabalhar.

Era Terça-feira, dia de reunião de condomínio. O marido, reclamando de um dia cheio e de que ele é que sempre tomava frente nos assuntos domésticos, decide não ir esta noite. “O problema no encanamento fica para a próxima reunião”. Como ela tinha uma opinião divergente sobre o assunto, decidiu ir. Duas horas mais tarde, está de volta, morta de cansaço e precisando de um banho. Faz um pit stop na área para estender a roupa e vai para o chuveiro; de lá, cai direto na cama. Ele lhe faz um carinho na nuca, dizendo “eu te amo”; ela responde “boa noite” e não escuta ou sente mais nada. Dorme tão profundamente que nem sequer os sonhos ousam perturbá-la.

…E ainda têm coragem de falar em super-HOMEM.

Sorte no Jogo…

04/03/2006

E já no fim de sua vida, dona Miriam colhia frutos de sua existência maiúscula, de contribuições importantíssimas para toda a humanidade e nem por isso descansava. Sonhadora e visionária como todo gênio da ciência, não desistia de buscar suas paixões e saciar sua sede de conhecimento jamais.

Desde criança havia ela se dividido entre suas grandes paixões: gavetas e a quina. A primeira, era uma paixão inata. desde que se entendia por gente, já tinha real fascinação e idolatria por gavetas. De madeira, ferro ou as de plástico e papel, das lojinhas de 1,99, essas maravilhas da engenharia humana ajudavam sobremaneira a organizar o mundinho meticuloso da então jovem virginiana que acreditava, no mais profundo de seu âmago, existir uma ordem para cada coisa na natureza.

Foi com esse pensamento que se deidicou a aprender as ciências exatas e estudou um pouco de teologia em sua adolescência. Queria descobrir a ordem das coisas, enumerá-las, organizá-las. Nesta época, conheceu sua segunda paixão, que a levou a lugares jamais sonhados por um ser humano comum: a quina! Cinco numerozinhos, uma probabilidade quase ínfima de acertá-los num universo de 80. Porque não a sena ou o totobola ou o bingo da paróquia, porém, nunca soube explicar. Para isso, teria que se dedicar a antropologia, filosofia e outras “ias” do campo de humanas e não era essa a sua missão. O campo de humanas é muito desorganizado e abstrato. Arrumar a casa ia dar muito trabalho e nem em 50 vidas ela conseguiria.

Seu sonho desde os 15 anos era jogar na quina. Acompanhava cada sorteio como se fosse um aficcionado por futebol, assistindo à final de uma Copa do Mundo, em casa, com sua seleção em vantagem. Mesmo que não jogasse.

Era necessário um planejamento, um estudo de comportamento das bolinhas, dos globos onde as bolinhas eram colocadas, das pessoas de camisa branca com os símbolos da Caixa que rodavam os globos. Não realizaria seu sonho, sua meta de vida sem um planejamento a altura. Tinha o histórico de todos os jogos desde 1985, ano em que nasceu. Todos guardados em suas gavetas. Sabia que o número 64 tinha saído mais de 156.356 vezes e que o número 4 saíra apenas 45.781. Não jogaria no quatro. A probabilidade de sair 4 era muito pequena, historicamente falando.
Assim passou sua adolescência. No vestibular, passou em primeiro lugar para estatística em todas as universidades em que tentou. Ela deveria estudar estatística nos seus pormenores para calcular, sem margem de erro, a probabilidade dos números da quina. Aprendeu que seus cálculos até então estavam errados. Que a probabilidade do 4 sair era exatamente a mesma do 64. Que não importava se jogava 15-23-38-55-67 ou 1-2-3-4-5. A probabilidade de um jogo ou o outro sair era a mesma. A faculdade mudou muito sua ótica do problema.

Foi numa aula de cálculo porém, ao ouvir sobre teoria do caos, que ela viu a luz! Sim! As coisas estavam intrinsecamente ligadas. Talvez, a borboletinha azul, voando faceira sobre o mar vermelho, pudesse influenciar de algum modo as correntes de ar e fazer um ventinho bater na pessoa de camisa branca com propaganda da Caixa e fazê-la parar de rodar o globo por um instante e isso mudar todo o destino do seu jogo. Resolveu estudar teoria do Caos.

Fez mestrado, doutorado, PhD. Desenvolveu teses, escreveu livros sobre teoria dos números, estatística, probabilidade, Teoria do Caos. Ganhou um prêmio Nobel ao encontrar a equação que ditava a dinâmica da economia de mercado, tanto para mercados livres, sem interferências de governos, até os mercados altamente protecionistas e de economia planejada. E todas as formas de sobrecruzamento e relacionamento entre eles. Graças a isso, nunca mais houve um “crash” em bolsas de valores, o capitalismo foi salvo de uma possível derrocada. Uma lei mundial foi votada e aprovada, a chamada Miriam’s Bill, que tratava da interferência da ONU na questão econômica e política do mundo caso a situação à época, segundo a “Equação de Mercado de Miriam“, fosse preocupante. Revolucionou a maneira de pensar dos profissionais de computação ao conseguir, num só meio físico (suas gavetas), ordenar todos os seus pertences por dois critérios diferentes de ordenação: data de aquisição e ordem alfabética (em português… Ainda estava consultando os dicionários russos para organizá-los por esta lígua também.). Como isso foi possível ainda não se conseguiu descobrir, mas o fato foi provado matematicamente. Dona Miriam bem que tentou explicar, mas as pessoas não conseguiram acompanhar seu raciocínio lógico e ela desistiu. Várias pessoas concluíram doutorado e PhD estudando o “Algoritmo de Ordenação de Miriam“. Ninguém, a não ser ela, conseguiu prová-lo e explicá-lo até hoje.

Já nos seus 97 anos de história e colaboração à ciência, dona Miriam ainda não tinha realizado o sonho de sua vida. Jogar na quina. Chegou a arrematar, pela bagatela de 55.000 reais, no Mercado Livre, um globo (com as bolinhas) de sorteio da quina. Estudou engenharia mecânica para poder compreender todos os princípios e mecanismos daquela máquina maravilhosa.

Hoje, o dia de seu aniversário, 14 de Setembro, seria o dia mais memorável de sua vida, maior do que seu terceiro Prêmio Nobel seguido ou que a visita do papa e da Rainha da Inglaterra. Até mesmo maior do que o pedala Robinho que o próprio pediu que ela lhe desse. Hoje, ela estava impecavelmente arrumada, desceu as escadas de sua casa e se dirigiu a uma casa lotérica. Iria Jogar na Quina! Finalmente! Após 97 anos de espera. Fez sua aposta e, tão feliz e jovial se sentia, resolveu ir caminhando de volta à casa. Eram apenas 1500 metros mais um vão de escada. Guardou seu bilhetinho na bolsa e pôs-se a percorrer a calçada de sua cidade. Feliz, feito criança, sabia que a aposta tinha sido perfeita. Jogou apenas UM bilhetinho. O bilhetinho. Não importava a soma em dinheiro do prêmio, mas sim o sonho realizado da quina perfeita. Até a ordem do sorteio ela sabia que acertaria. E, sonhando, cantarolando, caminhava. Seu coração mal cabia em seu peito ao subir as escadas de sua casa, tamanha a emoção. E tamanha a idade também. Cansado, ele parou. Às 14:55 do dia 14 de Setembro, dona Miriam, feliz e confiante, dava seu último suspiro.

No dia seguinte, estampado na página principal do site da Caixa, o resultado da Quina: 1 Ganhador apenas – Adenor Percival dos Santos, com o jogo 1-2-3-4-5.