Archive for April, 2006

Requiem in Pacem

12/04/2006

Descobriu que ia morrer.

Seu mundo desabou em um piscar de olhos ao receber a derradeira notícia. Imaginou sua vida até então e chegou à conclusão de que muito deveria ser mudado antes de chegar a sua hora.A partir daquele dia, resolveu não seguir mais nenhuma regra imposta sobre como se portar, o que não fazer, dizer, o que planejar para o futuro… Seu futuro já lhe era conhecido; não devia mais se preocupar com ele. Ia morrer. Era fato.

De uma hora para outra, resolveu dormir menos e aproveitar mais o dia. E a noite. Dentro em pouco, teria muito tempo para o sono; uma eternidade. Resolveu não se calar quando se sentisse impelido a dizer algo, fosse por pura presenciar algum ato injusto, fosse por pura vontade de dizer bom dia, eu te amo… Contou à mulher que amava como se sentia, a vontade que tinha de estar a seu lado pelo resto da vida; mesmo que não fosse tanto tempo assim. E descobriu que muito foi exatamente o tempo que ela esperara por aquele momento.

Resolveu aprender a surfar, voar de asa delta, mergulhar. Começou a fazer o que gostava, sem se importar se aquele trabalho lhe dava ou não status e se descobriu incrível naquilo. Dedicou mais tempo aos amigos, à família, a todos aqueles a quem amava e de quem, dentro em breve, se despsdiria. Deixou para correr atrás de dinheiro depois que resolvesse esses assuntos mais importantes. Sem pensar se já havia séculos ou apenas minutos, pediu em casamento a mulher a quem um belo dia resolveu abrir seu coração. Ela, sem temer tornar-se viúva, aceitou. Era, realmente, a mulher se sua vida.

Aos 20 anos, descobriu que morreria e passou a viver cada dia que lhe restava como se fosse seu último. Aos 95, amigo, bem sucedido, marido, pai, avô, bisavô, fechava seus olhos com a incrível surpresa de que a certeza da morte fizera-lhe IMORTAL.

Ato de Contrição

08/04/2006

Era Domingo, o Dia do Senhor. Acordou cedo, e tomou um banho demorado, como que lavando-se todas as impurezas para o momento de comunhão com Deus para o qual se dirigia. Pensava nas maravilhas da fé, nos sacrifícios que Jesus havia feito para o bem de toda a Humanidade e se sentiu pequeno ante ao pequeno ato louvor de Domingo.Vestiu sua melhor roupa. Uma roupa quente, pois era inverno e fazia muito frio em Belfast. De sua casa à Igreja mais próxima eram apenas 5 minutos de ônibus, que passava defronte a outra Igreja, Católica.


Antes de sair, pegou o seu material de louvor, ajoelhou-se e abriu a Bíblia para uma oblação antes do memento auge da sua manhã. “O Senhor é meu Pastor. Nada me faltará. Ainda que eu ande pelo Vale da sombra e morte nada temerei…”. Sentia-se feliz por prestar culto ao Deus Uno, ao Deus Verdadeiro, revelado no Evangelho de Cristo dois mil anos antes para a salvação da Humanidade!

Foi andando até a igreja Católica que ficava no caminho à sua. Em frente, um ponto de ônibus. Parou. Esperou. As pessoas começavam a sair da missa e se dirigiam àquele mesmo ponto. Ele deixou a bíblia que levava no banco e saiu, caminhando displiscentemente, rumo à sua própria Igreja, onde o culto começaria logo. Cinqüenta metros andados e um barulho. O ponto de ônibus onde parara, estava diminuído a poucos escombros e muitos corpos, uns já sem vida, outros agonizantes fosse pela dor ou pela iminência da morte.

Agora que fizera o seu ato de contrição, poderia entrar mais tranqüilo na Casa de Deus e prestar-lhe culto.