Archive for May, 2006

O Sorriso de Kurosawa

20/05/2006

Da série: Histórias de Copa

Mais uma Copa. Outra cobertura.

Havia viajado ao outro lado do mundo com mais 18 pessoas. Repórteres, fotógrafos, analista de sistemas; companheiros. Todos faziam um pouco de tudo: fotos, matérias, suporte, lavanderia, transporte de equipamentos. Quando havia tempo, comiam e dormiam.

Num dos raros dias de folga, resolveram mergulhar no “Mar Amarelo”. Enquanto parte da equipe cobria o jogo da China, os três foram à praia. Como ETs, atraíam a atenção dos banhistas coreanos. Talvez a cultura tropical brasileira não fosse tão compreendida por aqueles lados e suas sungas talvez fossem um tanto inusitadas para o público local.

Enquanto seus companheiros aproveitavam as águas do Pacífico, ele contemplava o local. E os locais. Todos vestindo bermudas, alguns com camisetas. As mulheres, com biquinis que jamais seriam usados em terras tupiniquins ou maiôs do mesmo gosto. Foi assim que avistou uma figura que acabou por lhe chamar a atenção. Caminhando pela areia, curvado, como saído de um filme de Kurosawa, um velhinho o fitava.

Para sua surpresa, veio em sua direção. Os olhos, já pequenos, entreabertos, parte pelo sol, parte pelo sorriso copioso que o velho exibia. Chegando mais perto, sorrindo como se presenciando algum tipo de milagre indescritível da natureza e sem dizer uma palavra, o senhor levou a mão ao peito do estrangeiro. Estava absorto pelos pêlos que via naquele corpo.

Como se acariciando um animalzinho de estimação, passou a mão mais uma vez sobre o peito do repórter, olhou-o nos olhos, sorriu agradecido, um sorriso ainda maior do que o que já ostentava ao se aproximar (se é que era possível), e, maravilhado, voltou a sua caminhada.

Isso não sai em jornais…

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Tricolor de Coração

18/05/2006

Ele era o típico tricolor acima de qualquer suspeita. Não se dizia tricolor doente, pois para ele doentes eram os flamenguistas, para desgosto do seu velho pai. O pobre criara o filho com todo amor e carinho, catequizando-o na crença de que “só o Flamengo salva” enquanto a criança ainda não tinha consciência de que ele mesmo existia. Ao crescer, nada que seu velho fizesse poderia tirar-lhe a firme convicção do gigante das Laranjeiras. Acompanhava todos os jogos, todas as conquistas, as derrotas. Estava com o Fluminense em todos os momentos, não se deixando esmorecer nem nas piores vicissitudes. Era um tricolor maiúsculo.

O amor pelo clube o acompanhava em todos os momentos da vida. Formou-se jornalista e decidiu cobrir esportes, para ficar perto do seu time de coração. Casou-se com uma tricolor e teve um filho a quem ele agora catequizava no dogma verde, branco e grená. Da mesma forma como ocorrera na sua própria história enquanto filho, via o seu garoto renegando a herança cultural da geração anterior e adotando uma nova bandeira. O pequeno, sabia lá ele porque, era vascaíno. “Menos mal.”, pensava, “podia ser flamenguista…”.

E eis que um confronto acirra ainda mais essa pequena rixa familiar. Fluminense x Vasco. Semi-final da Copa do Brasil. O Fluminense em melhor fase que o adversário enchia-lhe o peito de orgulho e certeza da vitória. Provocou o filho, apoiado pela esposa (na saúde e na doença, como tinha que ser…), não esqueceu de um amigo vascaíno da redação do jornal onde trabalhava e ainda, escreveria ele, esta noite, noite do grande confronto, a matéria do derradeiro encontro.

Há tempos não se via a redação tão cheia como aquela noite. Desde a cassação do Roberto Jefferson, para ser mais exato. Contínuos, pessoal da limpeza, da Tecnologia… toda a gente que não tinha uma TV no seu departamento tinha algo para fazer na redação aquela noite.

No primeiro tempo, a fôrma da reportagem vazia. Não havia história, mas, ao que lhe parecia, ela seria bastante favorável aos tricolores. Ele estava animado; soltava piadinhas de quando em quando. Vibrou com um chute na trave que seu time desferira. As primeiras linhas surgiram durante o intervalo; um apanhado do primeiro tempo sem gols, mas com domínio do Fluminense.

O segundo tempo já não lhe foi tão prazeroso. O time adversário tomara a dianteira do jogo, indo mais ao ataque e devolvendo o balaço na trave do primeiro tempo. Mesmo assim, ainda tinha esperanças quando o Flu ia até a área vascaína. Continuava torcendo tanto quanto ou até mais do que no primeiro tempo… Até que, aos 35 minutos, pouco antes do fechamento do jornal e com sua matéria ainda pela metade, o Vasco marca. Agora, abatido pelo revés que sofrera, resolveu terminar seu trabalho antes que seu editor lhe viesse aos berros cobrar a página. Ao começar a escrever, o Fluminense começa a buscar o gol com mais perigo. Aos 45, o Flu quase marca e, para sua própria surpresa, vê-se comemorando a defesa do goleiro do Vasco. Sua matéria estava quase terminada. “Pelo amor de Deus! Não vai me empatar o jogo agora, não!”

E respirou aliviado ao apito final do juiz, como se vascaíno fosse.