Archive for June, 2006

Crônicas de Sofá: Brasil x Croácia

15/06/2006

(fotos: Fifa World Cup 2006)

Nesta Copa do Mundo de 2006 na sala de casa (pelo menos para a maioria dos Brasileiros que preferiram não ir à Alemanha) e como em todas as outras, o país presencia uma das maiores mudanças nas personalidades de cada um dos seus cidadãos. Devidamente acompanhados pelo amendoim com cerveja e pelos amigos da pelada do fim-de-semana, brasileiros comuns das mais diversas origens transformam-se em cronistas esportivos, emitindo a cada lance a sua opinião nada abalizada e absolutamente parcial. Algumas dessas opiniões sobrevivem apenas naquele momento; outras, no entanto, são mantidas vivas por um indivíduo mais incauto, que resolve escrevê-las e divulgá-las, como neste caso.

O jogo

O Brasil começou o primeiro tempo ensaiando ser O Brasil! Ronaldinho Gaúcho, como sempre, passou cola na bola e nada podia tirá-la de seu pé. Depois da primeira linda seqüência de dribles, o técnico da Croácia, “Clodovic”, passou cola em três zagueiros também e os grudou no craque. Nada demais. Ainda havia outros 9 na linha. Roberto Carlos, mostrou que merece respeito com três balaços na trave do goleiro “sei-lá-o-que-vic”. Kaká, para a alegria da mulherada, que também viram comentaristas durante os jogos (comentaristas de pernas de jogadores, cabelo, roupas…), jogava o seu futebol habitual, sem grandes firulas, objetivo e discreto. Isso até os 7 minutos.

A partir daí, os passes brasileiros começaram a dar de lado e o time parou de ir pra frente. Foi a hora da Croácia gostar do jogo. O time estava fechado, com sua camisa de bobo-da-corte, talvez para causar outro ataque epilético no Fenômeno, mas que não fez a mínima diferença, pois nosso pequeno Buda estava de olhos bem fechados, meditando na meia-lua do time dos Bálcãs e sequer moveu um músculo. Os croatas começaram a ensaiar uma reação, regido pelo seu capitão, Kovac, que parecia ter bebido meio litro da sua xará (a vodka) de tanto que caía. Nada que levasse muito perigo ao gol do Dida, no entanto. O lance mais incrível da Croácia foi arrancar do Galvão Bueno o comentário de que o Brasil enfrentava um adversário dificílimo na estréia. Lamentável.

No final, Kovac, de tanto cair, acabou deixando o campo, provavelmente com problemas no fígado, e seu companheiro, “outra-coisa-qualquer-vic”, o substituiu. Entrou tão somente para ver Kaká, que, ao lado de Ronaldinho Gaúcho, foi o melhor em campo no primeiro tempo, chutar da intermediária no canto do goleiro croata e marcar. Ao apito do juiz, nosso fenomenal Buda, finalmente resolver correr. Para o vestiário, para comer sua barra de cereal e beber seu isotônico.

No segundo tempo, três fatos mereceram comentários. O primeiro foi que, finalmente, conseguiram atrapalhar a meditação do nosso Ronaldo Lama ao jogarem uma bola em sua direção. Irritado, nosso budista chutou-a contra o gol do “sei-lá-o-que-vic”.

Preocupado com o bem-estar dos seus comandados, o técnico Parreira, gentilmente ofereceu um lugar melhor para a meditação do Buda carioca-madrileño: o banco. No seu lugar, e este é o segundo fato que vale comentário, Robinho entrou bem e, finalmente, tivemos um quadrado mágico nesta Copa. O último, e fato mais importante do todo o segundo tempo, foi que a cerveja estava estupidamente gelada e o amendoim, um espetáculo.

Ilustres anônimos

08/06/2006

Da série: Histórias de Copa
(foto: André Guarabyra)

Mais uma vez, tivera de deixar sua pátria e se aventurar em terras ermas. Ossos do ofício. Longe do glamour de um jornalista, mas bem conhecedor dos momentos reais do dia-a-dia, aqueles que passam longe dos sonhos dos estudantes e aficcionados por histórias do Superman; lá estava ele, em Weggis, na sua terceira Copa consecutiva, acompanhando os enviados especiais do jornal em que trabalhava. Para ele, nada de especial. Era apenas o “cara da tecnologia”.

Parado na janela do quarto do hotel, contemplava a noite suíça, que teimava em se atrasar. “E dizem que brasileiro é que não é pontual…”, pensava, enquanto se perdia na alvura dos alpes. Uma alvura, reluzente ao sol das oito da noite, que lhe remetia ao sorriso da filha, a milhas de distância, no Rio de Janeiro. Só este pensamento já servia para aquecer-lhe um pouco o espírito naquela triste e clara noite fria do fim de primavera suíço. Tudo estava errado naquele lugar. O sol brilhava à noite, fazia 8 graus a um mês do verão, as pessoas falavam uma língua estranha, não ouvia sua caçulinha gritando “Papai, cheguei!”, sua esposa não estava do seu lado, apreciando aquela vista…

Por mais que dentro do quarto houvesse mais de dez repórteres, numa mini-redação improvisada, discutindo a pauta do caderno de esportes do dia seguinte, sentia-se deprimentemente só. Quase vazio. Desligado do mundo, via cada momento da sua vida passando por diante dos olhos. O primeiro beijo na sua esposa, o pedido, o casamento, a primeira filha, o anúncio da segunda. Talvez fosse assim para um moribundo em sua derradeira hora. decerto, moribundo sentia-se naquele instante. A vida acompanhando as celebridades, porém longe das ilustres desconhecidas da sua vida era apenas uma existência fosca, sem graça.

Quis abraçá-las, dizer o quanto as amava. Quis chorar. Há momentos em que um homem é apenas uma criança querendo colo. Momentos como aquele. Enxugou a lágrima rebelde que lhe fugiu do olho úmido e sussurrou ao vento o que precisava externar, esperando que ele levasse um pouco de todo aquele amor e saudade àquelas que eram apenas 3 pessoas entre milhares da cidade maravilhosa, mas que, para ele, eram toda a maravilha do mundo.

Outra que não saiu nos jornais…