Archive for August, 2006

Crime e castigo

25/08/2006

Se atirou.

Sua vida chegara a um ponto em que não tinha mais escolha. Perdera a vontade de lutar, o prazer de viver. Subiu o mais alto que pôde sem avisar a ninguém. Quem está resoluto num propósito, leva-o a cabo simplesmente; pirotecnias é para carentes de atenção ou maus-caracteres. A única coisa em que pensou antes de se lançar aos braços do ar foi que aquele era o único caminho.

O vento esbofeteava-lhe a face como se desaprovasse aquele ato de desespero, mas, gentil, causava-lhe apenas frescor. Providencial. Para ele, um sinal afirmativo de sua decisão. Também o tempo pareceu conspirar contra aquilo tudo e diminuiu seu passo, como se se negasse a dar sua contribuição.

Naquele lapso, que para os apressados seres viventes poderia ser apenas um piscar de olhos, sua vida inteira começou a passar-lhe defronte os olhos. Assim como os poetas costumavam dizer que acontecia. O tempo tinha uma cúmplice e fiel companheira: a lembrança. Que se uniu a ele em seu ato de protesto e trouxe à tona tudo de que o pobre suicida escolhera esquecer.

Lembrou-o da infância, suas aventuras incríveis, amigos eternos e amores platônicos. Do primeiro amor não-platônico, o primeiro beijo. Lembrou-o das vitórias que teve depois dos tempos mais sombrios. Lembrou-o dos pais, que, assim como em todas as outras vezes, lhe apoiavam e amavam incondicionalmente. Os irmãos, seus pilares sempre que estivera prestes a desabar. Lembrou-se de todas as maravilhas de sua vida, e acabou esquecendo da vontade de perdê-la.

Tendo cumprido seu dever, o tempo voltou ao seu trabalho normal; a lembrança, teimosa, continuou com ele. Já não queria mais cair; lembrara-se de que era feliz. Sua vida chegara a um ponto em que não tinha mais escolha.

Com um estampido surdo, encontrou-se com o chão.

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Ocidente de Fé

09/08/2006

Acordou aquela manhã com o peso do mundo em suas costas. Era um clérigo, um homem de fé, responsável pelas almas de milhares de seguidores da sua religião no Ocidente. Dormira pouco, como de praxe, e acordou com as meias lhe prendendo a circulação.

Talvez estivesse engordando. Levantou-se, calçou suas pantufas xadrez e foi direto ao banheiro, onde pôde relaxar um pouco antes de tratar de assuntos de Fé em sua confortável Jacuzzi. Foi até a porta da cobertura onde morava, buscar o Financial Times do dia, informativo teológico de que não poderia abrir mão. Lia-o enquanto se refestelava com seu humilde breakfast: ovos, bacon, presunto, panquecas com geléia de morango e, para finalizar, cereal com suco de laranja.

Vestiu-se com sua bata clerical, um armani impecável, mais caro do que o salário do chofer que o levava todos os dias ao Templo em sua Mercedes. Abriu sua carteira para contemplar seu Santos: Lincoln, Washington… estavam todos lá. Deu um sorriso largo, satisfeito por estar sob a proteção de deidades tão poderosas quanto aquelas; deidades que conferiam ao seu povo o status portadores de direito da cultura global, que deveria ser espalhada por todo o mundo; mesmo aos que não a quisessem.

Deixou sua esposa e filhos em casa, sem se despedir, e foi para mais um dia de celebração e trabalho pela sua Fé. Foi para a Bolsa de Valores.