Archive for October, 2006

Duas vidas

20/10/2006
Não cria no papel defronte seus olhos. Um teste. Um resultado. Positivo. Tudo o que ela não queria estava acontecendo, seu mundo acabara de ruir por completo em questão de segundos. Sentia-se perdida, sem norte, sem sul; pontos cardeais não lhe eram reconhecíveis naquele instante. Estava grávida. Não planejara, não pretendia, não pensara. Seu sonho de amor de adolescência transformara-se no pior pesadelo de sua vida inteira. Não só não estava preparada para ser mãe como sabia que não contaria com o apoio dos pais, conservadores e religiosos, tampouco do ex-namorado, com quem terminara na semana anterior porque se apaixonara por outro garoto.

Não pensava mais em paixões, na festa em que queria ir, onde investira meses de planejamento, nas amigas do colégio; em nada. Nada além daquele corpo estranho que crescia em seu próprio corpo. Não podia continuar com aquele fardo tão grande. Livre arbítrio. Decidiu que não queria ter a criança. Vivia num país livre, onde ela tinha seus direitos fundamentais respeitados, direito sobre o seu próprio corpo, um país laico por constituição, livre de dogmas religiosos na legislação. No entanto, o assunto era tabu. Tanto o assunto de sua gravidez inesperada e precoce quanto (e principalmente) o assunto do aborto que decidira fazer.

Seus pais, já passada a primeira tempestade proveniente da descoberta de que sua princesinha seria, dentro em pouco, MÃE, já planejavam a vida da filha após a vinda do rebento; vida que ela mesma não queria, não planejara e não aceitava. Continuava atendo-se ao seu direito de decidir o seu próprio destino, sobre seu próprio corpo. Quem eram um sem-número de legisladores carolas para dizê-la que ela não pode decidir não ter um filho, sem nem ao menos dar-lhe uma explicação muito detalhada e plausível sobre o assunto? Que autoridade tinham para dizer que um indivíduo não tem o direito de SE auto-governar? Sequer aceitava a decisão capital do pai, de que ela teria o filho, cuidaria dele e teria que abandonar a vida que havia planejado por todos os seus 17 anos de vida.

Desesperada pela falta de apoio, pela falta de “respaldo legal”, procurou tomar nas próprias mãos seu destino. O Estado, teoricamente preocupado em preservar uma vida que nem sequer existia, tolhia-lhe o direito de ter a sua própria para si. Seus pais, como costumavam fazer, informava-lhe o que eles haviam decidido para ela. Até então ela aceitara todas as imposições que lhe fizeram, sempre foi boa filha, sempre aquiesceu à vontade dos pais e ao que era ser “cidadã”. Até então. Pela primeira vez na vida, decidiu que não brincariam com a vida dela, que não decidiriam por ela. Procurou, por meios próprios, sua liberdade.

Aos 17, por não ter sido dada o direito de escolha sobre sua própria vida e por ter lutado para tê-lo, perdera, para a própria vida, o direito de viver. Os pais, preocupados com o que um livro grosso lhes instruía a fazer para ganhar o céu, com a morte da filha, compraram o próprio inferno em vida. O Estado, querendo impor a geração de uma vida, dera cabo de duas ao mesmo tempo.

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Homens de Negócio

01/10/2006

“Você sabe que não é pessoal, não é? É só o meu trabalho! Se eu te alivio agora, vão cobrar de mim e aí, já viu, não é?”

“Por favor! Me alivia essa! Meu moleque estava chorando em casa e eu precisava de algum pro leite! O dia que você tiver um filho é que você vai saber o que é ver o seu moleque chorando e tu não ‘ter’ o que fazer.”

“Se tu ‘tivesse’ comprado leite no início do mês ao invés de torrar tudo com cachaça, o moleque tinha o leite dele! Ou então tu ‘vinha’ falar comigo, que eu te adiantava algum. Você sabe que os ‘home’ não esquentam. Eles ‘tão’ aqui é pra ajudar mesmo!”

“Se fosse pra ajudar, tu ‘tava’ na escola agora. Não quero dever favor pra bandido nenhum!”

“Bandido?! A gente ajuda todo mundo, protege o morro e tu ‘chama nós’ de bandido? Só por isso, não vai ser mais na mão. Vai na cabeça mesmo!”

Sacou a arma, apontou para a testa de seu mais novo desafeto e disparou, com a mesma frieza com que se mata uma barata.

“Agora, NÓS ‘cuida’ do teu moleque…”

Trabalho feito, voltou para a sua diversão. O menino pegou seu carrinho e foi correndo para um monte de areia perto dali.