Archive for November, 2006

Uma noite de gala

23/11/2006
Parecia uma noite de filme de Holliwood; daquelas que só acontecem de verdade quando se fica preso no trabalho até tarde e, quando por fim conseguimos sair, já começou a chover. A lua estava cheia e radiante e era possível até ver algumas estrelas. Ou talvez alguns pontinhos daqueles fossem helicópteros…

Ela havia se arrumado impecavelmente. Vestido longo preto; que se fosse branco, roubaria a cena da noiva; cabelo muito bem arrumado e comportado, e um belo sapato de salto alto. Haviam ido à festa ela, o marido, o cunhado e sua esposa. Chegaram ao clube, luxuoso, estupendo. As mesas em volta da piscina com um passadiço de tijolos de vidro no meio. Tudo ainda mais valorizado pelo jogo de luz que refletia o céu, e o passadiço, na água.


A cerimonialista mostrou-lhes sua mesa. Ficava do outro lado da piscina, de onde podiam enxergar melhor a lua, aquele belo céu; e, não tão melhor assim, o salão coberto, que ficava do outro lado da piscina.

Tudo ia maravilhosamente bem naquela noite. Nada poderia correr mais maravilhosamente bem, pensava ela. A comida era boa, o ambiente era muito bom, boa música. E o calor era ainda melhor. Na verdade, ele era tão bom no que fazia que ela e a esposa do cunhado já suavam em bicas. Sua companheira de percalço então propôs que fossem ao salão coberto, onde tinha ar condicionado.

Ela se levantou com toda a classe que seu vestido, seu cabelo, seu sapato, a noite bela e o calor escaldante permitiam. Caminhava, passo após passo, com todo o garbo e elegância, do alto de seu Luís XV. Passo após passo, em direção ao passadiço de tijolos de vidro, até que percebeu algo que lhe chamou a atenção de uma maneira especial.

Ou algo de muito estranho acontecera à realidade, ou onde havia pisado faltava um chão. Inda não estava muito certa nem de uma coisa, nem de outra e resolveu pisar no que quer que fosse aquilo mais um pouco; só para ter certeza. Chegou a duas conclusões: a realidade continuava intacta e ali, definitivamente, não tinha um chão. Resoluta e esclarecida, deu outro passo e caiu na piscina.


Emergiu com toda a classe que seu vestido, seu sapato e a noite bela lhe permitiam. O calor pareceu ter resolvido ficar onde ainda havia chão e não quis participar da equação de elegância desta vez. O cabelo até queria, mas a água atrapalhou um pouco. Percebendo o desapontamento de suas mechas, resolveu começar de novo. Mergulhou novamente e tornou a emergir, agora sim, com toda a classe que seu vestido, seu sapato, a noite bela e seu cabelo, agora feliz da vida, lhe permitiam. Só não conseguiu repetir toda essa classe para sair da piscina porque a borda era alta demais para que ela saísse sozinha. Teve de pedir ajuda.

Eis que então surge o príncipe encantado! Seu marido resolve ir ao seu encalço e, com toda a classe que sua coluna não lhe permitia, mal conseguiu abaixar-se. Chamou seu irmão e, este sim, sem muita elegância, mas definitivamente com bastante eficácia, e a ajuda de seu primo; que até então sequer fora citado, mas que também estava lá; tirou-a da água.

Como já estava no chão, o calor voltou a pleitear a sua vaga na tal equação de elegância; encharcada e no chão, a própria elegância resolveu dar uma voltinha. Longe dali. O calor, deprimido, foi embora junto.

Passava por ali um garçom, servindo alguns canapés e, eventualmente, atendendo a pedidos por bebidas. Um Martini, um refrigerante, água. Ela, com toda a elegância que… bem, com alguma elegância que ainda lhe restara, fez seu pedido:

– Uma toalha, por favor.

Mais um dia…

15/11/2006
Mais um dia na vida de Jerônimo.

Mais um dia, como já não mais estava acostumado. Contava cada dia como menos um, um dia gasto; não, vivido.

Já quase meia-noite, literalmente fim do dia, foi quando ganhou o presente mais inusitado, porém prazeroso, dos últimos tempos. “Ciao”, começou meio incrédulo, certo de seu auto-controle e resignado com a seqüência de subtrações dos dias de sua vida. Esperava ouvir “oi” e ver a conversa desvanecer num silêncio inexpugnável.

Para sua surpresa, o “oi” de resposta não foi o final da conversa, mas seu início. Inusitado. Surpreendente. Secretamente sonhara, imaginara, mentalizara tudo aquilo. Pensamentos, palavras, jeitos, trejeitos. Como se combinado, tudo aconteceu exatamente como em sua mente.

A cada palavra, cada idéia, cada silêncio, via todo o seu auto-controle sorrindo-lhe jocosamente, dando-lhe as costas e fechando a porta ao sair. Seus olhos brilhavam e o sorriso brotava-lhe da boca, vivo e tenaz, como já não cria ser possível. Pelo menos para ele. Atacava-lhe constantemente um conjunto de sensações; sensações de que podia jurar lembrar-se, apesar de não ter nada concreto na memória que ratificasse aquilo. Um sonho. Um sonho real que se repetia a cada minuto, até o sol nascer.

Perdera o sono, perdera a noite, perdera o controle e ganhara a vida.

Mais um dia na vida de Jerônimo.