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God save the King

04/01/2007

Como fazia todos os dias, pôs-se a caminho do trabalho. Porém, hoje, ia com propósito firme e inescusável. Teria mais dinheiro do que já sonhara o maior e mais avarento de todos os sonhadores.

O faria ao final do expediente, quando toda a gente mais estaria pensando à casa tornar, quando não se dessem mais por conta uns dos outros, ao aguardar que enfim o maior dos ponteiros atingisse a meta desejada. À hora programada, o cofre abriu-se. Sim, trabalhava num banco, daqueles suntuosos, a fazer afronta mesmo a sedes de governos de nações menos abastadas. E ele tinha acesso ao final do arco-íris daquele palacete. Cabia-lhe apenas esperar que a sonhada ponte multicolorida se formasse por completo para que, enfim, atravessasse-a com segurança.

Última abertura do cofre naquele dia. O homem, desconfiado dos seus, agora prefere entregar a seres inanimados o que mais valoriza. O sistema abriu a porta. Ele levou o dinheiro dos caixas para dentro, ainda não havia um robô que o fizesse, esperou ainda um instante, até que fechou-se a porta.

Sim! Agora era senhor de riquezas inimagináveis! Lá estava seu reino. Rostos multicolores; alguns seus patrícios, outros, estrangeiros; todos a olhá-lo, como dando aquiescência do domínio que se lhes impunha naquele momento. Seu primeiro ímpeto, após a coroação silenciosa, foi o de acercar-se o mais que podia dos novos súditos; sobretudo os estrangeiros. Em cada bolso, ou qualquer outro lugar junto ao corpo em que pudesse, metia-se-lhe grandes chumaços de notas de todas as cores, de preferência as de mais alto valores.

Pensava que enfim encontrara sua felicidade. Tudo quanto desejasse estava-lhe agora ao alcance. Resolveu promover o primeiro censo de sua gestão como grande soberano. Puxou uma boa quantidade de cédulas para perto de si, sentou-se ao chão e Pôs-se a contar. Não é preciso dizer que horas e horas transcorreram até que ele chegasse ao primeiro milhão. Outras até o segundo. Só parou porque, de repente, sentiu a boca seca. Besteira! Depois se compraria um rio. Não, não. Um oceano! Dessalinizaria a água depois. O importante era a vastidão e imponência da propriedade. A barriga também começava a protestar a falta de atenção de seu amo. Outra pequenice! Se quisesse, poria fim à fome da África agora. Se quisesse. Não era a Madre Teresa de Calcutá, porém. Comprar-se-ia a África. Melhor assim. Até mesmo o Saara transformaria numa floresta tropical. Claro que levaria algum tempo, mas com seus recursos; não os do Saara, os do homem; seria mesmo apenas questão de tempo.

Tempo… Agora seria sua mente a pregar-lhe peças. Lembrou-se da mulher e da filha, que a esta altura deveriam estar preocupadas com a sua demora. Irrisório! A esposa já não era uma criança que precisasse de quem a amparasse e a filha já ia pelos quatorze; tampouco era um bebê. E, de mais a mais, ainda teria a mãe, na pior das hipóteses. Que ficassem a derramar as lágrimas, haveriam de ser vencidas pelo cansaço e lhes secaria o pranto o sono. Tudo tinha uma boa causa, como já não lhe havia dito Maquiavel, mas como todos creditam a ele esta frase, fica-se por sua. “O fim justifica os meios”.

Sua respiração, no início profunda e fácil, ia ficando mais pesada e sôfrega. Não. Não seria o ar a lhe faltar naquele cofre lacrado. Devia apenas estar demasiado extasiante ou talvez fossem aqueles pensamentos todos. Só isso. Voltasse a contar, e essa pequena ânsia passaria. Foi o que fez. Quatro milhões… quinhentos e s… sessenta e sete mil… setecentos e oitenta, qua… tro milh… milhões…

Desistiu de contar. Não tinha mais sede, nem reconhecia a presença do estômago. Se nem mesmo suas necessidades fisiológicas ou sua anatomia lhe eram sabidas agora, quanto mais o tocariam as lembranças da mulher e da filha. A respiração ia cada vez mais lânguida. Ele se colocava mais cédulas nos bolsos, agora sem distinção de cor ou valor. Perfeito ideal de igualdade. Ia-se assim, sentado, depois recostado, deitado.

Com os bolsos cheios, fechou os olhos.