Archive for March, 2007

Redenção final

11/03/2007
(Foto: Marcio Carvalho/ Edição: Renato Guilarducci)

Chorava copiosamente. Chorava de dor, de tristeza, ultraje, nojo. Incrível como o ser humano consegue transformar o belo em horrendo, a vida em morte. Ela sentia sua

respiração forte ao pescoço, a barba por fazer espetando-a, sua voz grossa dizendo-lhe obscenidades ao ouvido, onde por vezes, sua língua passeava. Sentia o calor do
corpo indesejado contra o seu e a frieza dom metal da arma na sua têmpora esquerda.

A princípio, debateu-se, empurrou-o, gritou; mas foi calada pelo seupróprio sangue, brotando-lhe da boca, fruto do golpe covarde que recebera; logo após o que fora apresentada ao metal frio e ameaçador.

Sentia as mãos do calhorda por seu corpo; a risada irônica achacava-lhe a alma, enquanto a dignidade do corpo era violada. Sentia raiva, sentia dor, remoía-se em tristeza! Pediu a Deus que morresse. Tão suja sentia-se, que apenas seu sangue poderia lavá-la.No mesmo passo que aquele encadeamento de horrores se aproximava do auge, suas forças abandonavam-na. Por fim, não agüentou tudo aquilo e desmaiou.

Acordou semi-nua, como estava ao desfalecer, com seu perpetrador adormecido ao lado, com o braço sobre sua barriga. Ela não sabia mais ou que sentia, se ódio ou asco. Ódio por ele; asco de si. Podia, como queria, tanto matar quanto morrer. E encontrou o instrumento que a saciaria ao seu lado.

A arma que há minutos a ameaçara jazia fria e imparcial no chão, pornta para libertá-la do modo que ela decidisse. Tirou a mão do cafajeste de cima de si e tocou sua liberdade, sentindo o frio que aliviava a fogueira do seu ódio.

Olhos fixos no bandido, arma firme à mão. Levou-a atéa boca e beijou-a.

Atirou.

Sobre a Auto-Migração Ortomemética Regulatória

07/03/2007
(Special thanks to: Thais, for the photo)

O Strombago é um lugarejo ermo, localizado no centro-sul, notório pelo caráter ácido de seu povo e pelas borboletas geladas siberianas. Essas criaturinhas fascinantes, apesar de não serem parte da fauna local, são, em alguns casos, freqüentemente encontradas voando a esmo por aquelas bandas, devido à influência de uma região ao centro-norte do Strombago, onde se concentra todo o controle de fluxo dos arredores.

Acontece que, quando janelas são abertas com muita freqüência para o trânsito de letras em forma de números, o controle de fluxo é afetado lá no centro-norte e, no seu lugar, começa algo como uma festa de arromba, ou uma bela roda de samba, a julgar pelas batucadas. Com a festa rolando no norte, o sul é afetado pelo fenômeno de La Niña (em alguns casos, é El Niño que acontece. Depende do Strombago) e o Strombago é acometido por um inverno fora de época. Ao norte, ninguém quer nem saber da situação ali embaixo, porque está tudo bom demais!

O inverno fora de temporada, aliado à pequena área do Strombago, faz com que sua população ácida torne-se um tanto quanto agridoce e esse é exatamente o tipo de gente de que as borboletas geladas siberianas gostam mais. Assim, segundo a Lei Quântica de Kant, as nossas amigas geladas da Sibéria são tele transportadas por pequenas criaturinhas que adoram mudar as coisas de lugar, chamadas memes. Desta forma, lá da região do Maxilar (ou Tutano como alguns cientistas preferem), os nossos amiguinhos anarquistas trazem as borboletas para o Strombago. Esse fenômeno é conhecido como Auto-Migração Ortomemética Regulatória (AI, sigla em japonês).

Uma vez ali, as borboletas geladas siberianas ouvem o batuque do norte e se animam. Desta forma, começam a voar freneticamente de um lado para outro no Strombago, que fica ainda mais frio, apesar do calor desgraçado que faz do lado de fora de suas fronteiras. Como calor e samba têm tudo a ver, o batuque aumenta ainda mais e outras partes também caem no samba. As borboletas, que não são bestas, aproveitam o carnaval e começam sua festa particular por ali mesmo e, devido ao seu ridículo período de gestação e aos sacanas dos memes, que furam todas as camisinhas, se reproduzem feito coelhos (Ah! Pobres coelhos…).

Assim, em pouco tempo, perde-se a cabeças, a boca seca, as palmas das mãos suam, as pernas bambeiam e a coordenação motoras se exila nas montanhas com vergonha disso tudo.

Tudo por causa do Strombago agridoce, de La Niña e, claro, das borboletas geladas siberianas.