Archive for May, 2007

S.P.P.

26/05/2007
Lugar estranho é hospital.

É lá onde sentimentos tão distintos convivem lado a lado tão harmoniosamente; em meio ao caos do lugar, naturalmente. Hospital é um paradoxo. No mínimo, irônico é ver um grupo em branco, sorrindo próximo ao quarto da velha senhora que acabara de morrer. No seu prontuário, três letras avisavam de seu estado. SPP. Se Parar, Parou.

Já se arrastava havia alguns dias, num quadro clínico complicado, delicado. Mobilizava, vez por outra, a equipe de enfermeiros e fisioterapeutas, já tirara o sono do residente e do plantonista em algumas ocasiões. O que ela tinha não vem ao caso. Qualquer ite ou ose, devidamente descrita no prontuário, com uma lista de idos, inas e oxes para fazê-la melhorar. No entanto, SPP.

No início, chegou-se a tentar prever o dia em que aconteceriam os P’s das sigla. Naquele dia, porém, já pela manhã a discussão girava em torno da grande questão ética hospitalar: “antes ou depois da visita?”.

Mais uma vez, a velhinha mobilizava a equipe médica. Desta vez, não pela necessidade de um qualquer-oxe de alguma-coisa-ose para tratar sua ite, mas a mais importante questão médica: “antes ou depois da visita?”. Até o Diretor apostou dez pratas que seria depois.

Agora, uns voltavam ao trabalho resignados; outros, sorriam próximo ao quarto da pobre. Não que a morte fosse bem quista, ou que a senhora não o fosse. Mas ela foi antes da visita.

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Panic House

06/05/2007
Revisitava suas lembranças do tempo em que conseguira a casa. Belos tempos. Tudo novo, cada canto uma sensação diferente. Hoje em dia, porém, as coisas já não andavam como antes. O lugar lhe parecia pequeno, como que encolhendo a cada momento, apesar de ser exatamente o mesmo lugar, igual, do mesmo tamanho. Talvez ela houvesse mudado. Talvez fosse isso o que mais a assustava. Mais do que a casa parecendo diminuir do tamanho com ela dentro. Sentia a necessidade de sair da casa. Mudar, porém, é incerto; nada é seguro quando se muda. Ela não gosta de apostas.

O auge do disparate, no entanto, chegara. Decidiu que era hora de tentar. Vencer seus medos e arriscar a se sentir bem, mesmo apesar dos riscos que aparecessem. Largou sua xícara de chá na mesinha da sala e foi em direção ao quarto. Uma nova aventura requer um bom trajar.

No silêncio do corredor, lembrou-se que lá fora fazia barulho. Carros, pessoas… Pessoas! Odiava desconhecidos que puxavam conversa. Pior os que a tocavam. E se fossem ladrões? Voltou à sala e trancou bem a porta.

De volta à escolha da roupa. Estaria calor lá fora? O que usar num verão escaldante de tempos de aquecimento global? Verão escaldante. Sol. Câncer de pele. Ainda na sala, fechou todas as janelas e repetiu o ritual em cada cômodo.

Pronto. Não teria problemas com pessoas espaçosas, barulho, sol… Mantivera seu mundo como antes. Sem mudanças. Seguro. Comprimia-a cada vez mais o peito, mas já estava acostumada. A compressão era parte do “antes” seguro.

Por fim, respirou aliviada. Respirar! Toxinas, gases poluentes enchendo o ar que lhe adentra os pulmões! Meticulosamente, tapou cara entradinha de ar da casa. Cansada, porém segura, sentou-se no sofá, de volta ao chá.

Minutos depois, morreu sufocada.