Archive for July, 2007

British tea

13/07/2007
Preparava seu chá naquela manhã. Levou consigo o frasco com o jasmim, cuidadosamente guardado em seu quarto junto com outras ervas e sachês. Tudo meticulosamente organizado, como manda a cartilha virginiana. Ela gostava das coisas sob seu controle. Trazia à mão, também, sua caneca roxa, que seria estreiada dentro em pouco. Tudo isso, acompanhada de perto por sua gata, companheira inseparável.
Encontrou a chaleira com água e o açúcar fora de lugar. “Reles criaturas desorganizadas e sem disciplina!” Recusava-se a requentar água velha, mas resolveu abstrair a falha do açúcar. Era misericordiosa.
Jogou a água velha fora, separou a chaleira num canto. Lavou a caneca roxa e mediu nela a quantidade de água para o chá. Reuniu chaleira e caneca, derramando a água fresca na primeira. Descansou a caneca próximo ao frasco com o jasmim, já posicionado corretamento ao lado do açúcar. Acendeu o fogo. Não podia estar muito alto, nem baixo demais. Colocou a chaleira.Sentia-se o maestro de uma orquestra imensa. Um caos em potencial, transformado em arte pelo toque de sua mão. Tinha o controle total do ambiente, de si e da gata, que assistia a tudo de uma forma tão serena e disciplinada quanto a dona. Ela adorava ter o controle de tudo! Já sabia cada passo que deveria dar e exatamente como o chá sairia ao final.O toque do telefone quebra o silêncio cerimonial do feitio do chá. Uma voz conhecida e terna dizia-lhe oi. Ela teve o ímpeto de sorrir, largar o chá e contar sobre o seu dia; mas, em meio a seu processo, disciplinada, apenas disse oi. Ele, a voz, o caos em pessoa, continuava.

Continuavam se falando. Ele, aleatoriamente e com pouquíssimo auto-controle. Ela, metódica e senhora de si, preocupada em não deixar a água ferver e retirá-la assim que atingisse os 90 graus. Se falavam como se se conhecessem desde sempre. Ele, atrapalhado e aleatório; ela, coordenando tudo. Desde a cozinha até seus sentimentos. Água e pedra.

Com o tempo, à medida que a conversa evoluía, as coisas iam mudando. Ele já falava baixo e não batia em tudo. Ela já sorria e esquecia de algumas regras. Colocou o açúcar com a colher do jasmim e este, direto do frasco. Tudo na caneca errada. Transportou tudo para a certa, de um modo que nunca faria. Aliás, nunca faria tal transporte. Ou beberia na caneca errada, ou jogaria tudo fora e recomeçaria do ponto da falha. Até a gata estava inquieta com o som da água fervendo. Ela, primeiro, aumentou o fogo. depois, percebendo o erro, o desligou. Tudo sem parar com a conversa.

Resolveram desligar e ela voltou ao chá. Voltou, percebendo o “caos” da cozinha. A gata inquieta, o chá sem medidas, duas canecas sujas, processo roto e água fervida. Aquele mundo era-lhe muito estranho. Mas estava, ao mesmo tempo, estranhamente feliz apesar daquela estranheza toda. Ou seria justamente por sua causa? Não sabia ao certo… Sabia é que tinha perdido o controle e não sabia mais o que seria daquele chá.

Aquilo a assustava, mas resolveu tentar. Derramou a água na caneca, tentando improvisar uma metodologia a partir do que a original fora um dia. Ao fim, levou a caneca à boca. Nunca na sua vida bebera um chá tão bom!