Archive for July, 2009

Calo

05/07/2009
Carmesim. Da mesma mina donde outrotra nasceram belíssimas palavras, que deram forma a idéias ainda mais iluminadas, brotara aquele líquido que pintou sua túnica branca. A tinta da pena que feriu com beleza ouvidos doentes fora derramada pelas mãos do tirano. Uma punição exemplar. A quem antes fora proibido falar, agora, era cortada a língua. E exibiam com orgulho em praça pública o jovem que fora a expressão de uma geração.
Sua mente borbulhava de idéias e seu coração de resfriava em sua desolação. Por onde sairiam as palavras que nasciam em sua cabeça, se já não mais poderia pronunciá-las? Fora calado; da forma mais covarde! E feito exemplo a todos aqueles que ousassem expressar suas idéias; ele mesmo já não podia mais fazê-lo.

Uma tristeza indizível invadiu seu peito; e sua alma foi tão preenchida por esse sentimento, que transbordou em copiosas lágrimas. O inimigo vencera. E fizera dele a expressão de sua vitória sobre a palavra. O feito inexpressivo, aquele que fora calado, ainda embebido em seu próprio sangue e, ainda, maculado pelas lágrimas da derrota, à vista de todos. E todos olhavam.
E percebeu que fora feito mudo, mas, ainda assim, todos testemunhavam sua tristeza e dirigiam-lhe as atenções. E que sua presença em si era a expressão da injustiça e intolerância de uma tirania que oprimia a todos. Tiraram-lhe a palavra, proibiram que se expressasse. Mas não se tira a expressão de quem tem uma alma! Não há violência que cale um coração resoluto, mesmo que lhe tirem a vida!

E levantou-se. E ergueu a cabeça. E todos os que passavam viam, agora, que ele chorava. De alegria.