Archive for April, 2010

O Casanova

29/04/2010

O que não fazem os mancebos apaixonados, na ânsia de conquistar o coração da amada e dos que lhe são caros! Principalmente o da mãe! Conquistar a sogra pode ser o primeiro passo para uma vida conjugal feliz e sem muita intervenção da dita cuja – sim, pouca intervenção, porque não há sogra que não se meta!

O sujeito foi convidado pela namorada para um almoço “em família”, que jurou de pé junto que a mãe era a melhor cozinheira que ele conheceria na vida! Quando dizem que o caminho para o coração de um homem passa pelo estômago, o convite da donzela denunciava suas más intenções para com o garoto. Não obstante, o camarada, já há muito tempo perdido pela pequena, aceitou sem nem dar ouvidos ao blá blá blá sobre a candidata a futura sogra.

Tudo certo para o grande dia. O mancebo na maior beca, banho tomado, perfume importado e sapato lustrado. À hora marcada, lá está. Recebido com toda deferência pela namorada e pela mãe, e com certa desconfiança pelo pai. Pai é assim. No início, é a mais pura austeridade; depois que casa, lá estão os dois, refestelados no sofá da sala a assistir a final do campeonato.

Sentou-se à mesa, de frente para a pretendida, deparando-se com o aparelho de jantar de porcelana e os talheres de prata, daqueles que só são usados em momentos muito especiais – de onde ele, fosse um pouco mais experiente em assuntos conjugais, concluiria que as intenções casamenteiras da namorada eram compartilhadas pela família inteira. Nas cabeceiras, os cabeças da família.

A mãe anunciou o prato escolhido, sua especialidade, feita com toda dedicação. Era uma receita de família, a herança mais cultivada em gerações, um leitão à pururuca com especiarias que já até ganhara prêmio. Um banquete digno dos mais exigentes chefs de cuisine, não fosse o detalhe de que o pretendente não suportava o festejado prato.

Como político em campanha, que até beijo em criancinha dá, o camarada comeu de lamber os dedos e teceu os maiores elogios à mão divina da, a essa altura, quase sogra. Isso, somado a seu bom porte e à sua simpatia – e ao fato de torcer para o mesmo time do (agora, sim) sogrão do coração –, resultou ao dito cujo o sucesso em propósito de conquistar toda a família.

O que não fazem os mancebos apaixonados, na ânsia de conquistar o coração da amada e dos que lhe são caros! Principalmente o da mãe! O problema é quando conseguem. Esse acabou casando com a filha e vai ter que passar os próximos anos da sua vida comendo o excelente leitão a pururuca da sogra, que ele detesta.

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Der Mindingo

27/04/2010

Esta é verídica e se passou na Alemanha, na Copa de 2006.

Não me lembro se em Stuttgart, Frankfurt ou mesmo Berlim. Foi numa dessas Gottaskaemstadt alemãs. Uma turma da equipe dos colegas jornalistas ia por uma das ruas da cidade, quando foram abordados por um homem. Nem estava o dito cujo maltrapilho assim. Aqui, no Brasil, ele bem poderia passar por uma pessoa de pequenas posses, a buscar algo para comprar no centro do Rio. Lá, na Gottaskaemstadt, ele era um mendigo. Assim, pelo menos o classificaram os jornalistas. A fim de sermos politicamente corretos – e pela minha desconfiança de que esse camarada tem uma casa no centro da referida cidade – chamemo-lo, à la Jânio Quadros, de pedinte.

O tal se aproximou e balbuciou um “aftasardemdoem” qualquer que nenhum dos brasileiros entendeu. Imaginem só se jornalista tivesse que falar a língua de cada lugar onde vai cobrir alguma matéria. Não haveria o quiproquó que parou o projeto da torre de Babel há uns anos. A linguagem de sinais, por outro lado, é universal. A mão do sujeito estava estendida e em seu rosto havia uma tentativa alemã de expressão de cachorro olhando para o dono comendo um belo pedaço de carne. Apesar da expressão facial em alemão ser um pouco diferente da brasileira, a turma entendeu o que o homem queria.

Lá pelas tantas, depois de o amigo Franz repetir, um pouco mais alto e devagar, a sua frase – coisa que não adiantou muito -, um dos jornalistas resolveu pôr um ponto final à chatice tipicamente brasileira em terras teutônicas. Arranhou no seu parco inglês que ele “don’t speak German”, com um olhar fingido de quem até gostaria de ajudar, mas não entendia o que lhe diziam. Foi daí que o pedinte retrucou:

– But I speak English!

Depois dessa, a turma toda imediatamente exigiu em coro do metido a intérprete:

– Ae, agora dá 5 euros pro cara, que ele merece!

Deu.

(Mais sobre Copas em http://fcvuvuzela.wordpress.com)

Ladrão que rouba ladrão

26/04/2010

Era uma fila comum de uma casa lotérica qualquer. No guichê, a velhinha revira a bolsa, à procura da conta que viera pagar, e nem percebe quando dela cai uma nota de cinquenta reais.

Eis que honrado cavalheiro se apresenta. Dando um passo à frente, o jovem que seguia a velha senhora na fila, cheio de despretensiosas intenções, esconde sob o tênis velho o vil papel; já que metal anda fora de moda no Banco Central.

A senhorinha, como já se esperava, pagou sua conta, deu boa tarde ao caixa, que nada notara, e seguiu tranquila em direção à rua. O jovem, por sua vez, fingiu amarrar o tênis e embolsou os cinquenta reais que, surpreso, ele achou logo embaixo do tênis com o cadarço desamarrado! Fez sua fezinha de sexta na quina – pois, na sena, todos jogavam e ele não era homem de dividir prêmio com ninguém – e tomou o mesmo rumo que a ex-dona da famigerada nota.

Mas a vida não reserva suas desventuras apenas a desprotegidas senhoras da terceira idade. O nosso (anti-) herói, ao sair da lotérica, é abordado por outro digníssimo senhor, que lhe leva a carteira com aposta e tudo. Desolado, fica a lamentar-se o dono do tênis e, agora, ele também, ex-dono da nota de cinquenta pela falta de honestidade dos homens.

E, dos dois, ainda prefiro o segundo ladrão, que ao menos teve a decência de mostrar a que viera.