O Casanova

O que não fazem os mancebos apaixonados, na ânsia de conquistar o coração da amada e dos que lhe são caros! Principalmente o da mãe! Conquistar a sogra pode ser o primeiro passo para uma vida conjugal feliz e sem muita intervenção da dita cuja – sim, pouca intervenção, porque não há sogra que não se meta!

O sujeito foi convidado pela namorada para um almoço “em família”, que jurou de pé junto que a mãe era a melhor cozinheira que ele conheceria na vida! Quando dizem que o caminho para o coração de um homem passa pelo estômago, o convite da donzela denunciava suas más intenções para com o garoto. Não obstante, o camarada, já há muito tempo perdido pela pequena, aceitou sem nem dar ouvidos ao blá blá blá sobre a candidata a futura sogra.

Tudo certo para o grande dia. O mancebo na maior beca, banho tomado, perfume importado e sapato lustrado. À hora marcada, lá está. Recebido com toda deferência pela namorada e pela mãe, e com certa desconfiança pelo pai. Pai é assim. No início, é a mais pura austeridade; depois que casa, lá estão os dois, refestelados no sofá da sala a assistir a final do campeonato.

Sentou-se à mesa, de frente para a pretendida, deparando-se com o aparelho de jantar de porcelana e os talheres de prata, daqueles que só são usados em momentos muito especiais – de onde ele, fosse um pouco mais experiente em assuntos conjugais, concluiria que as intenções casamenteiras da namorada eram compartilhadas pela família inteira. Nas cabeceiras, os cabeças da família.

A mãe anunciou o prato escolhido, sua especialidade, feita com toda dedicação. Era uma receita de família, a herança mais cultivada em gerações, um leitão à pururuca com especiarias que já até ganhara prêmio. Um banquete digno dos mais exigentes chefs de cuisine, não fosse o detalhe de que o pretendente não suportava o festejado prato.

Como político em campanha, que até beijo em criancinha dá, o camarada comeu de lamber os dedos e teceu os maiores elogios à mão divina da, a essa altura, quase sogra. Isso, somado a seu bom porte e à sua simpatia – e ao fato de torcer para o mesmo time do (agora, sim) sogrão do coração –, resultou ao dito cujo o sucesso em propósito de conquistar toda a família.

O que não fazem os mancebos apaixonados, na ânsia de conquistar o coração da amada e dos que lhe são caros! Principalmente o da mãe! O problema é quando conseguem. Esse acabou casando com a filha e vai ter que passar os próximos anos da sua vida comendo o excelente leitão a pururuca da sogra, que ele detesta.

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4 Responses to “O Casanova”

  1. Priscila Says:

    Hahahaha Excelente! Coitadinho, vai ter que encarar o tal do leitãozinho o resto da vida! Ainda bem que não me aconteceu o mesmo, rs. Adorei! Bjão

  2. Rafaela Says:

    Pergunta de cunho estritamente artístico: Por que seus personagens sempre se fodem muito no final? Tem alguma referência autobiográfica nisso?

    • Renato Guilarducci Says:

      Não. É porque é mais engraçado desse jeito mesmo…
      Alguns poucos casos, as histórias aconteceram mesmo, que nem a do mendigo alemão. Mas, a maioria nasce de conversas e da minha mente doente fazendo essas piadinhas infames de “e se o cara se desse mal”?
      (e, olha só, quase sempre tem uma liçãozinha subliminar nas histórias… =D)

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