Ante-nada

23/08/2009
Era uma Maria, ou uma Joana, ou ainda uma Rita…

Não importa quem fosse. O fato é que sempre fora ela muito bem informada e, como sempre dizia, “antenada nas novidades”. Considerava com propriedade sobre diversos assuntos da comunidade e, certamente, não era a fala um pudor seu.

Alegrou-se com o fim do namoro da Clarinha; pois o traste do Roberto não valia o ar que respirava. Como flertava com todas as meninas do bairro quando a namorada não estava por perto! Diferente do Paulo. Esse sim! Como ela invejava a Aninha, uma menina mosca-morta que havia, não se sabe como, fisgado o melhor partido das redondezas.


Chocou-se com a ida à bancarrota da Dona Maricotinha. A pobre, veja só que lástima, perdera as suas economias de toda uma vida no bingo. Isso, enquanto seu filho a abandonava para se aventurar numa outra cidade – aquele egoísta sem alma – e seu marido, o “seu” Alcebíades, sequer lembrava de seu próprio nome e passava as tardes vagando pela vizinhança a gritar desaforos aos ventos.Se alegrou com o nascimento do Juninho… E se decepcionou quando, pela terceira vez, repetiu o primeiro ano. Bem verdade que tinha a quem puxar: o “seu” Antenor mal havia concluído o quinto ano e dona Emengarda nem á escola havia ido. Como já dizia o ditado, filho de peixe…

Por toda sua vida, sempre soube tudo. No seu último suspiro, quando dizem passar a vida pelos nossos olhos, no entanto, não via nada diante de si. Nem sabia se
era uma Maria, ou uma Joana, ou ainda uma Rita…

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Gente da terra

02/08/2009

Morreu João Honório. Mais uma vítima da disputa infrutífera de anos por um pedaço de terra. A família, desolada, ao mesmo tempo em que chorava a morte do patriarca, alimentava o ódio aos Garcia. E a vingança era arquitetada.

Tal qual fora feito a um finado João, era agora planejado o último suspiro de um José. Um tiro certeiro enquanto colhesse, para avisar que o que se planta colhe-se. E lavar a terra gloriosa com o sangue desafeto.

Aquela terra boa, que retibuía com maravilhosos frutos cada semente que se lhe confiava. Terra rica, que bem poderia alimentar tantos quantos nela se fixassem. Terra boa, terra rica. Ora Ribeiro, ora Garcia.

Morreu José Vicente. E, mais uma vez, havia os lamentos, havia os planos. mais uma vez não viam os homens que a terra que tanto disputavam não era sua glória, nem riqueza.

Era seu túmulo.

Calo

05/07/2009
Carmesim. Da mesma mina donde outrotra nasceram belíssimas palavras, que deram forma a idéias ainda mais iluminadas, brotara aquele líquido que pintou sua túnica branca. A tinta da pena que feriu com beleza ouvidos doentes fora derramada pelas mãos do tirano. Uma punição exemplar. A quem antes fora proibido falar, agora, era cortada a língua. E exibiam com orgulho em praça pública o jovem que fora a expressão de uma geração.
Sua mente borbulhava de idéias e seu coração de resfriava em sua desolação. Por onde sairiam as palavras que nasciam em sua cabeça, se já não mais poderia pronunciá-las? Fora calado; da forma mais covarde! E feito exemplo a todos aqueles que ousassem expressar suas idéias; ele mesmo já não podia mais fazê-lo.

Uma tristeza indizível invadiu seu peito; e sua alma foi tão preenchida por esse sentimento, que transbordou em copiosas lágrimas. O inimigo vencera. E fizera dele a expressão de sua vitória sobre a palavra. O feito inexpressivo, aquele que fora calado, ainda embebido em seu próprio sangue e, ainda, maculado pelas lágrimas da derrota, à vista de todos. E todos olhavam.
E percebeu que fora feito mudo, mas, ainda assim, todos testemunhavam sua tristeza e dirigiam-lhe as atenções. E que sua presença em si era a expressão da injustiça e intolerância de uma tirania que oprimia a todos. Tiraram-lhe a palavra, proibiram que se expressasse. Mas não se tira a expressão de quem tem uma alma! Não há violência que cale um coração resoluto, mesmo que lhe tirem a vida!

E levantou-se. E ergueu a cabeça. E todos os que passavam viam, agora, que ele chorava. De alegria.

British tea

13/07/2007
Preparava seu chá naquela manhã. Levou consigo o frasco com o jasmim, cuidadosamente guardado em seu quarto junto com outras ervas e sachês. Tudo meticulosamente organizado, como manda a cartilha virginiana. Ela gostava das coisas sob seu controle. Trazia à mão, também, sua caneca roxa, que seria estreiada dentro em pouco. Tudo isso, acompanhada de perto por sua gata, companheira inseparável.
Encontrou a chaleira com água e o açúcar fora de lugar. “Reles criaturas desorganizadas e sem disciplina!” Recusava-se a requentar água velha, mas resolveu abstrair a falha do açúcar. Era misericordiosa.
Jogou a água velha fora, separou a chaleira num canto. Lavou a caneca roxa e mediu nela a quantidade de água para o chá. Reuniu chaleira e caneca, derramando a água fresca na primeira. Descansou a caneca próximo ao frasco com o jasmim, já posicionado corretamento ao lado do açúcar. Acendeu o fogo. Não podia estar muito alto, nem baixo demais. Colocou a chaleira.Sentia-se o maestro de uma orquestra imensa. Um caos em potencial, transformado em arte pelo toque de sua mão. Tinha o controle total do ambiente, de si e da gata, que assistia a tudo de uma forma tão serena e disciplinada quanto a dona. Ela adorava ter o controle de tudo! Já sabia cada passo que deveria dar e exatamente como o chá sairia ao final.O toque do telefone quebra o silêncio cerimonial do feitio do chá. Uma voz conhecida e terna dizia-lhe oi. Ela teve o ímpeto de sorrir, largar o chá e contar sobre o seu dia; mas, em meio a seu processo, disciplinada, apenas disse oi. Ele, a voz, o caos em pessoa, continuava.

Continuavam se falando. Ele, aleatoriamente e com pouquíssimo auto-controle. Ela, metódica e senhora de si, preocupada em não deixar a água ferver e retirá-la assim que atingisse os 90 graus. Se falavam como se se conhecessem desde sempre. Ele, atrapalhado e aleatório; ela, coordenando tudo. Desde a cozinha até seus sentimentos. Água e pedra.

Com o tempo, à medida que a conversa evoluía, as coisas iam mudando. Ele já falava baixo e não batia em tudo. Ela já sorria e esquecia de algumas regras. Colocou o açúcar com a colher do jasmim e este, direto do frasco. Tudo na caneca errada. Transportou tudo para a certa, de um modo que nunca faria. Aliás, nunca faria tal transporte. Ou beberia na caneca errada, ou jogaria tudo fora e recomeçaria do ponto da falha. Até a gata estava inquieta com o som da água fervendo. Ela, primeiro, aumentou o fogo. depois, percebendo o erro, o desligou. Tudo sem parar com a conversa.

Resolveram desligar e ela voltou ao chá. Voltou, percebendo o “caos” da cozinha. A gata inquieta, o chá sem medidas, duas canecas sujas, processo roto e água fervida. Aquele mundo era-lhe muito estranho. Mas estava, ao mesmo tempo, estranhamente feliz apesar daquela estranheza toda. Ou seria justamente por sua causa? Não sabia ao certo… Sabia é que tinha perdido o controle e não sabia mais o que seria daquele chá.

Aquilo a assustava, mas resolveu tentar. Derramou a água na caneca, tentando improvisar uma metodologia a partir do que a original fora um dia. Ao fim, levou a caneca à boca. Nunca na sua vida bebera um chá tão bom!

S.P.P.

26/05/2007
Lugar estranho é hospital.

É lá onde sentimentos tão distintos convivem lado a lado tão harmoniosamente; em meio ao caos do lugar, naturalmente. Hospital é um paradoxo. No mínimo, irônico é ver um grupo em branco, sorrindo próximo ao quarto da velha senhora que acabara de morrer. No seu prontuário, três letras avisavam de seu estado. SPP. Se Parar, Parou.

Já se arrastava havia alguns dias, num quadro clínico complicado, delicado. Mobilizava, vez por outra, a equipe de enfermeiros e fisioterapeutas, já tirara o sono do residente e do plantonista em algumas ocasiões. O que ela tinha não vem ao caso. Qualquer ite ou ose, devidamente descrita no prontuário, com uma lista de idos, inas e oxes para fazê-la melhorar. No entanto, SPP.

No início, chegou-se a tentar prever o dia em que aconteceriam os P’s das sigla. Naquele dia, porém, já pela manhã a discussão girava em torno da grande questão ética hospitalar: “antes ou depois da visita?”.

Mais uma vez, a velhinha mobilizava a equipe médica. Desta vez, não pela necessidade de um qualquer-oxe de alguma-coisa-ose para tratar sua ite, mas a mais importante questão médica: “antes ou depois da visita?”. Até o Diretor apostou dez pratas que seria depois.

Agora, uns voltavam ao trabalho resignados; outros, sorriam próximo ao quarto da pobre. Não que a morte fosse bem quista, ou que a senhora não o fosse. Mas ela foi antes da visita.

Panic House

06/05/2007
Revisitava suas lembranças do tempo em que conseguira a casa. Belos tempos. Tudo novo, cada canto uma sensação diferente. Hoje em dia, porém, as coisas já não andavam como antes. O lugar lhe parecia pequeno, como que encolhendo a cada momento, apesar de ser exatamente o mesmo lugar, igual, do mesmo tamanho. Talvez ela houvesse mudado. Talvez fosse isso o que mais a assustava. Mais do que a casa parecendo diminuir do tamanho com ela dentro. Sentia a necessidade de sair da casa. Mudar, porém, é incerto; nada é seguro quando se muda. Ela não gosta de apostas.

O auge do disparate, no entanto, chegara. Decidiu que era hora de tentar. Vencer seus medos e arriscar a se sentir bem, mesmo apesar dos riscos que aparecessem. Largou sua xícara de chá na mesinha da sala e foi em direção ao quarto. Uma nova aventura requer um bom trajar.

No silêncio do corredor, lembrou-se que lá fora fazia barulho. Carros, pessoas… Pessoas! Odiava desconhecidos que puxavam conversa. Pior os que a tocavam. E se fossem ladrões? Voltou à sala e trancou bem a porta.

De volta à escolha da roupa. Estaria calor lá fora? O que usar num verão escaldante de tempos de aquecimento global? Verão escaldante. Sol. Câncer de pele. Ainda na sala, fechou todas as janelas e repetiu o ritual em cada cômodo.

Pronto. Não teria problemas com pessoas espaçosas, barulho, sol… Mantivera seu mundo como antes. Sem mudanças. Seguro. Comprimia-a cada vez mais o peito, mas já estava acostumada. A compressão era parte do “antes” seguro.

Por fim, respirou aliviada. Respirar! Toxinas, gases poluentes enchendo o ar que lhe adentra os pulmões! Meticulosamente, tapou cara entradinha de ar da casa. Cansada, porém segura, sentou-se no sofá, de volta ao chá.

Minutos depois, morreu sufocada.

Redenção final

11/03/2007
(Foto: Marcio Carvalho/ Edição: Renato Guilarducci)

Chorava copiosamente. Chorava de dor, de tristeza, ultraje, nojo. Incrível como o ser humano consegue transformar o belo em horrendo, a vida em morte. Ela sentia sua

respiração forte ao pescoço, a barba por fazer espetando-a, sua voz grossa dizendo-lhe obscenidades ao ouvido, onde por vezes, sua língua passeava. Sentia o calor do
corpo indesejado contra o seu e a frieza dom metal da arma na sua têmpora esquerda.

A princípio, debateu-se, empurrou-o, gritou; mas foi calada pelo seupróprio sangue, brotando-lhe da boca, fruto do golpe covarde que recebera; logo após o que fora apresentada ao metal frio e ameaçador.

Sentia as mãos do calhorda por seu corpo; a risada irônica achacava-lhe a alma, enquanto a dignidade do corpo era violada. Sentia raiva, sentia dor, remoía-se em tristeza! Pediu a Deus que morresse. Tão suja sentia-se, que apenas seu sangue poderia lavá-la.No mesmo passo que aquele encadeamento de horrores se aproximava do auge, suas forças abandonavam-na. Por fim, não agüentou tudo aquilo e desmaiou.

Acordou semi-nua, como estava ao desfalecer, com seu perpetrador adormecido ao lado, com o braço sobre sua barriga. Ela não sabia mais ou que sentia, se ódio ou asco. Ódio por ele; asco de si. Podia, como queria, tanto matar quanto morrer. E encontrou o instrumento que a saciaria ao seu lado.

A arma que há minutos a ameaçara jazia fria e imparcial no chão, pornta para libertá-la do modo que ela decidisse. Tirou a mão do cafajeste de cima de si e tocou sua liberdade, sentindo o frio que aliviava a fogueira do seu ódio.

Olhos fixos no bandido, arma firme à mão. Levou-a atéa boca e beijou-a.

Atirou.

Sobre a Auto-Migração Ortomemética Regulatória

07/03/2007
(Special thanks to: Thais, for the photo)

O Strombago é um lugarejo ermo, localizado no centro-sul, notório pelo caráter ácido de seu povo e pelas borboletas geladas siberianas. Essas criaturinhas fascinantes, apesar de não serem parte da fauna local, são, em alguns casos, freqüentemente encontradas voando a esmo por aquelas bandas, devido à influência de uma região ao centro-norte do Strombago, onde se concentra todo o controle de fluxo dos arredores.

Acontece que, quando janelas são abertas com muita freqüência para o trânsito de letras em forma de números, o controle de fluxo é afetado lá no centro-norte e, no seu lugar, começa algo como uma festa de arromba, ou uma bela roda de samba, a julgar pelas batucadas. Com a festa rolando no norte, o sul é afetado pelo fenômeno de La Niña (em alguns casos, é El Niño que acontece. Depende do Strombago) e o Strombago é acometido por um inverno fora de época. Ao norte, ninguém quer nem saber da situação ali embaixo, porque está tudo bom demais!

O inverno fora de temporada, aliado à pequena área do Strombago, faz com que sua população ácida torne-se um tanto quanto agridoce e esse é exatamente o tipo de gente de que as borboletas geladas siberianas gostam mais. Assim, segundo a Lei Quântica de Kant, as nossas amigas geladas da Sibéria são tele transportadas por pequenas criaturinhas que adoram mudar as coisas de lugar, chamadas memes. Desta forma, lá da região do Maxilar (ou Tutano como alguns cientistas preferem), os nossos amiguinhos anarquistas trazem as borboletas para o Strombago. Esse fenômeno é conhecido como Auto-Migração Ortomemética Regulatória (AI, sigla em japonês).

Uma vez ali, as borboletas geladas siberianas ouvem o batuque do norte e se animam. Desta forma, começam a voar freneticamente de um lado para outro no Strombago, que fica ainda mais frio, apesar do calor desgraçado que faz do lado de fora de suas fronteiras. Como calor e samba têm tudo a ver, o batuque aumenta ainda mais e outras partes também caem no samba. As borboletas, que não são bestas, aproveitam o carnaval e começam sua festa particular por ali mesmo e, devido ao seu ridículo período de gestação e aos sacanas dos memes, que furam todas as camisinhas, se reproduzem feito coelhos (Ah! Pobres coelhos…).

Assim, em pouco tempo, perde-se a cabeças, a boca seca, as palmas das mãos suam, as pernas bambeiam e a coordenação motoras se exila nas montanhas com vergonha disso tudo.

Tudo por causa do Strombago agridoce, de La Niña e, claro, das borboletas geladas siberianas.

Um dia de azar

07/02/2007

Acordou da pior maneira possível. O despertador resolvera se vingar das agressões sofridas asté aquele dia não fazendo o seu trabalho. Se essa era realmente a inteção, não se pagou. A raiva por estar atrasado fora tamanha, que o pobre relógio explodiu contra a parede. Uma hora atrasado.

Não pôde tomas seu banho, ler a primeira página do jornal ou mesmo tomar seu café. Correu para vestir-se e tentar chegar ao ponto de ônibus a tempo de tomar o 513, que passava pontualmente a cada meia hora, o mesmo que ele devia ter tomado meia hora atrás.

Derretia-se em suor, tanto pela pressa com que andava quanto pelo calor que fazia. Ótimo! Chegar encharcado de suor no trabalho era realmente o que precisava para piorar ainda mais aquele dia, que já começara tão promissor. Não contava, porém, com a providência de Muprhy. Muito calor, mais alta umidade relativa do ar: chuva de convecção. Foi o recado que a natureza lhe deu com uma gota caindo direto em sua cabeça; seguido de outra; e outra.

Agora corria para o ponto. Felizmente o ônibus chegaria logo; questão de minutos. Vinte, na prática; atrasado. Molhado pelo suo e pela chuva, entrou no ônibus; cheio também pela chuva, que empurrrou uma quantidade de pessoas incomum para o veículo. Viajou de pé.Tudo bem. O trabalho não ficava assim tão distante. Realmente, não fosse o acidente envolvendo o 513 da meia hora anterior, ele teria chegado em 10 minutos.

Quarenta e cinco depois, desceu. Pelo menos já não chovia e ele não estava tão ensopado; quase apresentável. Caminhava pela calçada, pronto para atravessar a rua. Como escreveu o poeta, porém, havia uma pedra no meio do caminho, e ela o jogou ao chão, atrasando-o o suficiente para que o carro, que sua pressa não o permitira ver aproximando-se, passasse numa poça d’água e resolvesse o problema de ele estar seco.

Para compeltar seu total azar naquele dia, faltava apenas ser despedido. Tudo o que lhe aconteceu, no entanto, foi chegar ao trabalho são e salvo o suficiente para compensar as quase duas horas e meia de atraso.

God save the King

04/01/2007

Como fazia todos os dias, pôs-se a caminho do trabalho. Porém, hoje, ia com propósito firme e inescusável. Teria mais dinheiro do que já sonhara o maior e mais avarento de todos os sonhadores.

O faria ao final do expediente, quando toda a gente mais estaria pensando à casa tornar, quando não se dessem mais por conta uns dos outros, ao aguardar que enfim o maior dos ponteiros atingisse a meta desejada. À hora programada, o cofre abriu-se. Sim, trabalhava num banco, daqueles suntuosos, a fazer afronta mesmo a sedes de governos de nações menos abastadas. E ele tinha acesso ao final do arco-íris daquele palacete. Cabia-lhe apenas esperar que a sonhada ponte multicolorida se formasse por completo para que, enfim, atravessasse-a com segurança.

Última abertura do cofre naquele dia. O homem, desconfiado dos seus, agora prefere entregar a seres inanimados o que mais valoriza. O sistema abriu a porta. Ele levou o dinheiro dos caixas para dentro, ainda não havia um robô que o fizesse, esperou ainda um instante, até que fechou-se a porta.

Sim! Agora era senhor de riquezas inimagináveis! Lá estava seu reino. Rostos multicolores; alguns seus patrícios, outros, estrangeiros; todos a olhá-lo, como dando aquiescência do domínio que se lhes impunha naquele momento. Seu primeiro ímpeto, após a coroação silenciosa, foi o de acercar-se o mais que podia dos novos súditos; sobretudo os estrangeiros. Em cada bolso, ou qualquer outro lugar junto ao corpo em que pudesse, metia-se-lhe grandes chumaços de notas de todas as cores, de preferência as de mais alto valores.

Pensava que enfim encontrara sua felicidade. Tudo quanto desejasse estava-lhe agora ao alcance. Resolveu promover o primeiro censo de sua gestão como grande soberano. Puxou uma boa quantidade de cédulas para perto de si, sentou-se ao chão e Pôs-se a contar. Não é preciso dizer que horas e horas transcorreram até que ele chegasse ao primeiro milhão. Outras até o segundo. Só parou porque, de repente, sentiu a boca seca. Besteira! Depois se compraria um rio. Não, não. Um oceano! Dessalinizaria a água depois. O importante era a vastidão e imponência da propriedade. A barriga também começava a protestar a falta de atenção de seu amo. Outra pequenice! Se quisesse, poria fim à fome da África agora. Se quisesse. Não era a Madre Teresa de Calcutá, porém. Comprar-se-ia a África. Melhor assim. Até mesmo o Saara transformaria numa floresta tropical. Claro que levaria algum tempo, mas com seus recursos; não os do Saara, os do homem; seria mesmo apenas questão de tempo.

Tempo… Agora seria sua mente a pregar-lhe peças. Lembrou-se da mulher e da filha, que a esta altura deveriam estar preocupadas com a sua demora. Irrisório! A esposa já não era uma criança que precisasse de quem a amparasse e a filha já ia pelos quatorze; tampouco era um bebê. E, de mais a mais, ainda teria a mãe, na pior das hipóteses. Que ficassem a derramar as lágrimas, haveriam de ser vencidas pelo cansaço e lhes secaria o pranto o sono. Tudo tinha uma boa causa, como já não lhe havia dito Maquiavel, mas como todos creditam a ele esta frase, fica-se por sua. “O fim justifica os meios”.

Sua respiração, no início profunda e fácil, ia ficando mais pesada e sôfrega. Não. Não seria o ar a lhe faltar naquele cofre lacrado. Devia apenas estar demasiado extasiante ou talvez fossem aqueles pensamentos todos. Só isso. Voltasse a contar, e essa pequena ânsia passaria. Foi o que fez. Quatro milhões… quinhentos e s… sessenta e sete mil… setecentos e oitenta, qua… tro milh… milhões…

Desistiu de contar. Não tinha mais sede, nem reconhecia a presença do estômago. Se nem mesmo suas necessidades fisiológicas ou sua anatomia lhe eram sabidas agora, quanto mais o tocariam as lembranças da mulher e da filha. A respiração ia cada vez mais lânguida. Ele se colocava mais cédulas nos bolsos, agora sem distinção de cor ou valor. Perfeito ideal de igualdade. Ia-se assim, sentado, depois recostado, deitado.

Com os bolsos cheios, fechou os olhos.